
O Clube do Filme
Acho que todo mundo levou o mesmo susto: “David Gilmour escreveu um livro? Ah, não é O David Gilmour”. Estranho essa de escritor com nome de músico, daqui a pouco vai ter um Allan Poe cantando por aí ou coisa assim. Mas o fato é que existe uma semelhança de estilo entre os xarás – bons no que fazem, mas muito melosos, sem punch. O Floyd fez discos marcantes porque Roger Waters dosava as músicas com sua amargura mordaz. O Gilmour escritor não teve a mesma sorte.
A história é interessante, ainda mais por ser verídica. David, crítico de cinema, mal das pernas na vida profissional, se vê diante de um novo problema: seu filho de 15 anos não está nem um pouco interessado na escola. Uma inspiração o leva a propôr ao moleque um acordo nada ortodoxo – “Jesse, largue os estudos, mas veja três filmes por semana comigo, obrigatoriamente”. E assim fizeram por três anos.
Sair tão bruscamente do caminho high school / college que é trilhado por todo adolescente da classe social do garoto tem consequências, que são contadas em levada divertida, sempre pontuadas pelas impressões do autor sobre os clássicos do cinema que os dois, de fato, assistiram juntos. Em tom didático, Gilmour tentava passar pro filho valores e conhecimento sobre a vida através da ótica dos grandes diretores, atores e roteiros – e, diga-se, o cara tinha bom senso nas seleções, pra sorte do rapaz. No dia a dia, Jesse se envolvia com namoradas, drogas e tinha no pai um grande amigo, presente e apoiador – relação quase impossível nos dias de hoje, onde o turbilhão de stress e compromissos nos deixa cada vez mais longe das nossas crias.
Mas até falando de porres, cocaína, sexo e filmaços, Gilmour peca pelo excesso de açúcar e por nitidamente não ultrapassar certas barreiras. Talvez por tudo ter realmente acontecido, talvez para poupar Jesse de ter aquele período da sua vida exposta até o talo, o texto é sempre comedido e deixa várias portas fechadas. Ele é cúmplice do garoto, não do leitor. Faltou uma pitada de Waters pro nosso Gilmour passar a faca no pulso e escrever com sangue, realmente fazendo um livrão. Mas tudo bem, mesmo assim vai vender horrores e fazer muito sucesso – que nem os últimos discos do Floyd.